Pensamento computacional: além do código
Por Rennan Pardal
Imagine que uma criança precise ensinar um colega a preparar um pão com geleia. A princípio, parece uma tarefa simples. Basta passar a geleia no pão, certo?
Mas, quando surge a necessidade de explicar cada uma das etapas, rapidamente aparecem algumas perguntas. Qual pão será utilizado? Quantas fatias? É preciso abrir o pote antes ou depois de pegar a faca? A geleia deve ser espalhada em uma ou nas duas fatias? O sanduíche será fechado ou servido aberto?
Nesse momento, fica evidente que uma atividade aparentemente simples exige muito mais do que uma resposta rápida. Para resolver esse problema, é preciso organizar uma sequência de ações, prever situações, identificar informações relevantes e estruturar cada etapa para que outra pessoa consiga reproduzir o procedimento. Em outras palavras, é necessário construir um algoritmo.
Percebe que nenhuma dessas ações depende de um computador, de uma linguagem de programação ou de um dispositivo eletrônico? O que está em jogo é uma forma de pensar voltada à resolução de problemas, baseada na organização lógica de ideias, na análise de situações e na construção de estratégias. É justamente esse conjunto de competências que caracteriza o Pensamento Computacional.
Embora o termo tenha sido popularizado por Jeannette Wing (2006), reduzi-lo à programação propriamente dita significa limitar o alcance do próprio conceito. O Pensamento Computacional é uma habilidade fundamental para todas as pessoas, pois envolve a capacidade de formular problemas e estruturar soluções que possam ser executadas por pessoas ou por máquinas. Dessa forma, deixa de ser uma competência exclusiva da Computação e passa a representar uma maneira estruturada de compreender e enfrentar desafios em diferentes contextos.
A própria BNCC da Computação incorpora essa perspectiva ao organizar a aprendizagem em três eixos estruturantes: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. Enquanto o Mundo Digital busca desenvolver a compreensão sobre o funcionamento dos sistemas computacionais e a Cultura Digital promove uma participação crítica, ética e responsável na sociedade conectada, o eixo Pensamento Computacional dedica-se ao desenvolvimento das competências cognitivas necessárias para analisar problemas, elaborar estratégias e construir soluções.
Essa organização reforça que ensinar Computação não significa, necessariamente, ensinar linguagens de programação. Programar é uma das formas de aplicar o Pensamento Computacional, mas não a única. Um estudante que organiza, sobre uma mesa, blocos do Scratch representados por cartas de papel ou palitos de sorvete está programando, mesmo que não utilize um computador para isso. Da mesma forma, uma turma que cria um algoritmo para orientar o preparo de um pão com geleia ou elabora as regras de um jogo desenvolve competências relacionadas ao Pensamento Computacional, mesmo sem escrever uma única linha de código. Em todos esses exemplos, o elemento central não é a ferramenta utilizada, mas as competências mobilizadas para resolver um problema.
As atividades desplugadas ganham relevância exatamente nesse contexto. Elas não surgem para substituir computadores nem representam uma etapa simplificada da programação. Sua principal contribuição é oferecer aos estudantes oportunidades para desenvolver competências essenciais do Pensamento Computacional antes mesmo do contato com uma linguagem de programação. Jogos, desafios, dinâmicas colaborativas, algoritmos em linguagem natural, fluxogramas e diferentes formas de representação favorecem esse processo ao estimular a análise de situações, a identificação de padrões, a construção de abstrações e a elaboração de soluções.
Quando o foco deixa de ser a ferramenta e passa a ser o raciocínio, o letramento digital também se fortalece. Ao vivenciar essas experiências, os estudantes constroem uma base conceitual que facilita a aprendizagem de linguagens de programação, plataformas computacionais e outros recursos digitais. Assim, conceitos inicialmente explorados em situações concretas passam a ser compreendidos também em níveis mais abstratos, tornando a aprendizagem mais significativa e contextualizada.
Voltemos, então, ao desafio do pão com geleia. Embora essa atividade não envolva computadores nem linguagens de programação, ela exige que o estudante organize ideias, estabeleça uma sequência lógica de ações, antecipe situações e elabore estratégias para resolver um problema. É justamente esse tipo de raciocínio que está na essência do Pensamento Computacional. As atividades desplugadas demonstram que aprender Computação vai muito além do uso de ferramentas digitais. Antes de programar, é preciso aprender a analisar problemas, organizar estratégias e construir soluções. Somente então o código passa a representar uma das formas de expressar esse pensamento.