Aprendizagem maker: uma relação entre inclusão, autonomia e autoestima

Aprendizagem maker: uma relação entre inclusão, autonomia e autoestima

Andressa Bispo

 

 

Uma caixa de papelão pode virar uma maquete. Garrafas usadas podem se transformar em um sistema de irrigação. Algumas peças eletrônicas podem dar origem a um carrinho programável. Para o estudante, porém, o resultado dessas experiências vai além do objeto construído. Durante o processo, ele também aprende a tomar decisões, enfrentar dificuldades e confiar na própria capacidade.

Essa é a proposta da aprendizagem maker, conhecida pela ideia de “colocar a mão na massa”. Nela, o aluno deixa de apenas receber informações e passa a participar ativamente da aprendizagem. Ele observa um problema, pensa em uma solução, escolhe materiais, constrói, testa e faz mudanças quando algo não funciona.

Mas o que isso tem a ver com autonomia e autoestima?

Quando recebe espaço para fazer escolhas, o estudante percebe que sua opinião tem valor. Em um projeto, precisa decidir qual caminho seguir, organizar etapas e assumir responsabilidades. Aos poucos, deixa de esperar todas as respostas do professor e começa a buscar soluções. Autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas desenvolver iniciativa e saber quando é necessário pedir ajuda.

O erro também ganha outro significado. Em muitas situações escolares, errar pode provocar vergonha, medo ou vontade de desistir. Em uma atividade maker, dificilmente tudo funciona na primeira tentativa. Uma estrutura pode cair, uma medida pode estar errada ou uma programação pode apresentar uma falha. Nesses casos, o erro não encerra a atividade: ele indica o que precisa ser revisto.

Uma pesquisa realizada com estudantes de uma escola pública de Manaus utilizou geometria, programação e construção de protótipos. Durante as atividades, os alunos precisaram identificar falhas e testar novas soluções. Quando conseguiam resolver os problemas, sentiam satisfação e se tornavam mais confiantes. Alguns passaram a se considerar capazes de aprender matemática, disciplina que antes viam como difícil ou restrita aos “mais inteligentes”.

É nesse processo que a autoestima pode ser fortalecida. Ao transformar uma ideia em algo concreto, o estudante encontra uma prova da própria capacidade. Ele pode olhar para sua criação e pensar: “Eu consegui fazer isso”. Essa percepção é especialmente importante para alunos que convivem com dificuldades de aprendizagem ou que raramente têm suas habilidades reconhecidas.

No contexto da inclusão, a aprendizagem maker também pode ajudar a romper a imagem do estudante com deficiência como alguém sempre dependente. Ao criar, experimentar e contribuir com um projeto, ele passa a ser reconhecido por suas possibilidades. Não se trata de ignorar suas necessidades, mas de valorizar aquilo que consegue fazer e oferecer ao grupo.

E “faça você mesmo” não significa “faça sozinho”. Muitos projetos maker são realizados coletivamente. Os estudantes precisam ouvir ideias, dividir tarefas, explicar opiniões e ajudar os colegas. Assim, também desenvolvem comunicação, cooperação, empatia, paciência e respeito às diferenças.

Para isso, a escola não precisa, necessariamente, de impressoras 3D ou equipamentos caros. Papel, papelão e materiais reutilizados também podem ser usados. O mais importante é apresentar desafios que permitam aos estudantes imaginar, escolher, construir e tentar novamente.

A resposta está no fazer. Quando cria, o estudante aprende. Quando supera uma dificuldade, passa a confiar mais em si. E quando percebe que sua participação pode transformar um projeto, começa a compreender que também é capaz de transformar a realidade ao seu redor.

REFERÊNCIAS

PAULA, Marco Antônio Teixeira de; PAULA, Silvia Clicia Corrêa dos Santos de; KLEMZ, Charles. Cultura Maker: uma metodologia aplicada na educação para o desenvolvimento da pessoa em contexto de inclusão. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 32, p. 1–13, 2026. DOI:

https://doi.org/10.70773/revistatopicos/775688376. Disponível em: https://revistatopicos.com.br/artigos/cultura-maker-uma-metodologia-aplicada-na-educacao-para-o-desenvolvimento-da-pessoa-em-contexto-de-inclusao. Acesso em: 11 ago. 2026.