O que falta não é entusiasmo pela IA na escola, é enxergar a formação como parte da política
por Bernardo Silveira
Uma pesquisa da Fundação Itaú, divulgada em 2025, trouxe um dado que costuma passar despercebido no meio de tanta conversa sobre a Inteligência Artificial na educação: 79% dos professores brasileiros já usaram IA em algum momento. Esse não é um número irrelevante. Ele mostra que a resistência ao contato com a tecnologia, que ainda aparece com frequência no discurso público sobre docentes e IA, já não corresponde à realidade da maioria das salas de aula. O problema não é falta de curiosidade e, pelo que parece, nem de abertura ao uso.
O mesmo levantamento, porém, revela outro número que muda completamente a leitura do primeiro: 48% dos docentes relataram não usar IA para planejar aulas, mesmo já tendo tido contato com a ferramenta. E 84% reconheceram que o currículo precisa ser atualizado para preparar os estudantes para o uso crítico dessas tecnologias. Juntos, esses três números desenham um retrato bem específico: docentes usam a IA, sabem que ela importa para o currículo, mas boa parte não sabe (ou não se sente segura) para integrá-la de maneira intencional ao planejamento pedagógico. Usar uma ferramenta e ser formado para ensinar com ela são duas coisas completamente diferentes, e é exatamente nesse intervalo que mora o maior desafio da educação brasileira com IA e pensamento computacional hoje.
A obrigatoriedade legal já não é mais uma promessa no horizonte. A BNCC-Computação, homologada em 2022, tornou-se implementação obrigatória a partir de 2026, com as redes tendo até dezembro de 2025 para atualizar formalmente seus currículos. E o prazo veio com peso financeiro: a adequação curricular passou a ser condição para o acesso à complementação do VAAR, uma das modalidades do Fundeb, e a rede que não comprovar a adequação pode perder parte do repasse. Isso significa que, na teoria, toda rede de ensino do país já tem (ou deveria ter), hoje, um currículo “adequado” à BNCC-Computação no papel. Mas adequação curricular formal e prontidão pedagógica são coisas bastante diferentes, e é aí que mora o problema real: a lei consegue obrigar a atualização de um documento em poucos meses, mas não consegue, da mesma maneira, formar um docente para ensinar pensamento computacional e IA com segurança didática — mais ainda se for um docente sem formação prévia na área. Um currículo pode até ser homologado (e agora vinculado a financiamento) em um ritmo administrativo, mas a capacidade de ensiná-lo se constrói em outro lugar, ao longo do tempo, com formação continuada de verdade, não com uma adequação de documento feito às pressas para não perder recurso.
O Piauí é um exemplo concreto dessa escolha. Em 2024, o estado se tornou o primeiro território das Américas a incluir a IA como disciplina obrigatória no ensino médio e no 9º ano do ensino fundamental, sendo reconhecido pela UNESCO por essa iniciativa. Outros países fizeram movimentos parecidos: em 2025, Pequim determinou que todas as suas escolas incluíssem aulas de IA no currículo, com pelo menos oito horas anuais, a partir do ensino fundamental; no mesmo ano, os Estados Unidos assinaram uma ordem executiva de política nacional para alfabetização em IA nas escolas, com parcerias público-privadas e recursos federais priorizados especificamente para a formação docente, não só para a aquisição de equipamento. É um detalhe que vale destacar nos três casos: quando a política pública para IA na educação foi desenhada de forma deliberada, a formação docente entrou como componente central, e não como um item posterior, que se resolve depois que o currículo já está pronto e o equipamento já chegou. Isso reforça algo que quem já esteve em uma formação presencial de docentes sabe bem: o gargalo raramente é só o acesso ao computador ou à ferramenta. É o tempo, o acompanhamento e o espaço estruturado para transformar contato individual com uma tecnologia em prática pedagógica intencional, alinhada ao currículo e às turmas reais que cada professor tem à frente.
Isso muda (ou deveria mudar) o jeito como precisamos pensar na formação docente para pensamento computacional e IA. Não é sobre convencer quem ainda resiste; a maioria já não resiste, os dados mostram isso. É sobre construir, de maneira sistemática e continuada, a ponte entre o uso pessoal de uma ferramenta e a decisão pedagógica de integrá-la ao planejamento, à avaliação, ao currículo. Enquanto essa ponte for tratada como responsabilidade individual de cada docente — algo que se resolve sozinho, em um fim de semana, assistindo a um vídeo —, o abismo entre a lei e a sala de aula continuará do tamanho que é hoje. A formação de professores não é, nem pode ser, o complemento da política curricular de IA e pensamento computacional. Ela é a própria política.
Bernardo Silveira é doutorando em Educação pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Seu foco de pesquisa inclui a formação docente e o ensino sobre, com e através das tecnologias em contextos de restrição de recursos.
Referências bibliográficas
https://www.govinfo.gov/app/details/DCPD-202500511
https://exame.com/mundo/criancas-terao-aulas-de-ia-em-escolas-da-china-que-busca-avancar-em-disputa-global/
https://www.fundacaoitau.org.br/noticias/educacao/84-dos-alunos-e-79-dos-professores-ja-utilizaram-ferramentas-de-ia-diz-estudo