Inteligência artificial na educação: como transformar respostas em oportunidades de aprendizagem

Inteligência artificial na educação: como transformar respostas em oportunidades de aprendizagem

Por Rennan Pardal

 

A inteligência artificial já faz parte de nossas vidas e pode nos apoiar em diferentes tarefas, como produzir textos, resumir conteúdos, sugerir atividades e responder a perguntas em poucos segundos. Mas o que acontece quando a resposta não é o ponto final de uma atividade, mas o começo de uma investigação? Na educação, uma das possibilidades da IA está em criar situações nas quais os estudantes precisam analisar informações, levantar dúvidas, comparar explicações e construir suas próprias conclusões.

Apesar de essas ferramentas estarem cada vez mais presentes, muitos professores ainda encontram dificuldades para começar a utilizá-las em suas aulas. Além de conhecer as ferramentas, é preciso entender como elas podem contribuir para o trabalho em sala de aula e avaliar as respostas que produzem. A falta de tempo para experimentar, as dúvidas sobre a qualidade das informações e a preocupação com a autoria dos trabalhos também fazem parte dessa realidade. Afinal, não basta ter acesso à tecnologia. É preciso descobrir como utilizá-la de um jeito que faça sentido para o professor e para os estudantes.

Uma forma de começar essa experiência é usar a IA em uma atividade que o professor já conhece. Ele pode, por exemplo, pedir sugestões de perguntas para uma discussão, buscar outras maneiras de explicar um conteúdo ou produzir um texto para trabalhar com a turma. Essas respostas não precisam ser usadas exatamente como foram geradas. O professor pode analisá-las, fazer ajustes e decidir o que realmente contribui para o objetivo da aula. Aos poucos, essa experiência ajuda a conhecer melhor a ferramenta e a perceber tanto suas possibilidades quanto suas limitações. Essa preocupação também aparece nas orientações da UNESCO (2023), que destacam a importância de considerar as pessoas, a inclusão e os cuidados éticos no uso da inteligência artificial na educação.

A partir dessas experiências, também é possível propor atividades em que os estudantes não apenas recebam informações, mas aprendam a questioná-las. Em Língua Portuguesa, por exemplo, podem analisar um texto produzido por IA, identificar informações que precisam ser verificadas e reescrever trechos. Em Ciências, podem comparar uma explicação da ferramenta com outras fontes e perceber se há erros ou informações incompletas. Em Matemática, podem analisar a resolução de um problema, encontrar possíveis erros e explicar como chegariam ao resultado. Em todos esses casos, o importante não é apenas utilizar a tecnologia, mas o que os estudantes fazem com as informações que ela apresenta.

Essa mudança na forma de propor atividades também merece atenção na avaliação. Se essas ferramentas conseguem produzir textos e resolver exercícios, olhar apenas para a resposta final pode não ser suficiente para entender o que o estudante aprendeu. É importante que ele explique suas escolhas, mostre como chegou a uma conclusão e consiga justificar o que escreveu ou modificou. Assim, o professor tem mais elementos para acompanhar a aprendizagem e perceber quais conhecimentos ainda precisam ser trabalhados.

Conhecer e experimentar essas ferramentas exige tempo e oportunidades de formação. O documento da UNESCO sobre competências em inteligência artificial para professores, publicado em 2024, destaca a importância de reunir conhecimentos sobre a tecnologia, cuidados éticos e práticas pedagógicas. Isso mostra que a formação não deve se limitar a ensinar como usar uma plataforma. Também precisa ajudar o professor a avaliar as respostas, reconhecer os limites da IA e decidir quando seu uso pode contribuir para a aula. A troca de experiências entre colegas pode ajudar bastante nesse processo, principalmente quando permite compartilhar atividades, discutir dificuldades e pensar em maneiras de melhorar o que foi realizado.

As ideias de Paulo Freire, apresentadas em Pedagogia da autonomia (1996), também contribuem para essa reflexão. Ao destacar a importância da curiosidade e da participação dos estudantes na construção do conhecimento, o autor nos ajuda a pensar sobre o papel da IA na educação. Embora sua obra seja anterior à popularização da inteligência artificial generativa, sua defesa de uma aprendizagem baseada na reflexão e na construção de ideias próprias continua atual. Nesse contexto, a IA pode ser utilizada como ponto de partida para investigar, fazer perguntas e ampliar o conhecimento, em vez de apenas fornecer respostas prontas.

Não é necessário utilizar essas ferramentas em todas as aulas, nem conhecer todas as opções disponíveis. O primeiro passo pode ser escolher uma necessidade real da turma e experimentar uma possibilidade de uso. A partir do resultado, o professor pode avaliar o que funcionou, fazer ajustes e decidir se vale a pena continuar. Esse processo exige tempo e abertura para aprender, mas permite construir uma experiência própria, sem precisar acompanhar todas as novidades que surgem.

Para o professor que ainda está aprendendo a lidar com essas ferramentas, começar por uma necessidade real da turma pode ser uma maneira de experimentar, avaliar os resultados e descobrir novos caminhos. O mais importante é que a tecnologia faça sentido para o que se deseja ensinar e amplie as oportunidades de aprendizagem, dando aos estudantes espaço para investigar, questionar e construir suas próprias ideias.

 

Referências 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MIAO, Fengchun; CUKUROVA, Mutlu. AI competency framework for teachers. Paris: UNESCO, 2024. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/ai-competency-framework-teachers.

UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/guidance-generative-ai-education-and-research.