Quando a tecnologia ensina a pensar

Quando a tecnologia ensina a pensar

Por Rennan Pardal

 

Vivemos um momento em que a tecnologia está cada vez mais presente nas experiências de aprendizagem. E isso é ótimo. Hoje podemos colocar nas mãos das crianças sensores, motores, placas de programação, diferentes tipos de componentes eletrônicos e recursos que, há poucos anos, pareciam muito distantes da escola. 

Mas existe uma coisa que me chama a atenção: às vezes, parece que a simples presença de toda essa tecnologia já é entendida como garantia de uma boa experiência. Se tem Bluetooth, Wi-Fi, sensor, aplicativo, inteligência artificial, então deve ser uma atividade incrível. Só que não necessariamente. No fim das contas, o que importa não é apenas o que o equipamento consegue fazer, mas o que a criança consegue fazer, pensar e descobrir a partir dele.

Isso fica bastante claro quando observamos os materiais que usamos em sala de aula. Há aqueles em que praticamente tudo já está resolvido: a peça certa, a conexão certa, a sequência certa e, seguindo o caminho indicado, o projeto funciona. 

Para uma criança que está começando, isso pode ser interessante. Ela consegue experimentar, perceber uma relação de causa e efeito e descobrir que consegue fazer alguma coisa acontecer. Mas também podemos oferecer os componentes e colocar um problema no caminho. Aí a conversa muda. Qual sensor poderia ajudar? Como vamos fazer essa conexão? Por que não funcionou? Será que existe outra maneira? De repente, aquilo que poderia ser apenas uma montagem passa a exigir investigação.

É justamente aí que uma ideia de Seymour Papert, retomada e ampliada por Mitchel Resnick, ajuda a pensar sobre o assunto: a ideia de ambientes com piso baixo, teto alto e paredes amplas. O piso baixo é importante porque precisamos conseguir começar. Não faz sentido entregar uma tecnologia tão complexa que a criança não consiga nem saber por onde entrar. Mas também não adianta facilitar tanto a entrada que, depois de alguns passos, não exista mais para onde ir. O teto precisa ser alto. E as paredes amplas fazem diferença porque não queremos que todas as crianças tenham necessariamente que seguir o mesmo caminho ou chegar ao mesmo resultado.

Isso muda bastante a maneira como podemos pensar um material tecnológico. Ele pode apresentar uma primeira experiência mais orientada, mas não precisa terminar nela. Um LED pode ser apenas o começo para compreender um circuito. Um sensor pode ser apenas o começo para perceber que um sistema pode reagir ao que acontece ao seu redor. A partir daí, a criança pode começar a combinar coisas, mudar uma montagem, tentar outra solução e, principalmente, entender por que aquilo funciona. É uma mudança pequena na proposta, mas enorme na experiência: em vez de apenas descobrir como fazer aquilo que foi pensado por alguém, ela começa a descobrir o que pode fazer com aquilo que tem nas mãos.

E isso tem tudo a ver com o que discutimos quando falamos em metodologias ativas. Não é porque a criança está construindo, mexendo em peças ou usando uma placa de programação que ela está, necessariamente, aprendendo de forma ativa. O mais importante é o que está acontecendo durante esse fazer. Ela está tomando decisões? Está tentando entender por que algo não funcionou? Está escolhendo entre possibilidades? Está construindo uma solução ou apenas seguindo uma? A atividade pode até terminar com um objeto funcionando, mas o caminho até ele é parte importante da aprendizagem.

Talvez, então, quando pensamos em materiais para Educação Tecnológica, devêssemos olhar um pouco menos para a quantidade de recursos que eles oferecem e um pouco mais para as possibilidades que deixam abertas. Uma placa com Wi-Fi ou Bluetooth pode fazer muitas coisas, mas isso não significa que todas essas possibilidades estejam chegando à criança como oportunidades de aprendizagem. Um material interessante é aquele que consegue acolher quem está começando e, ao mesmo tempo, não colocar um limite muito baixo para quem quer ir além. Que oferece caminhos, mas não precisa determinar todos eles.

No final, acho que é disso que estamos falando quando pensamos em tecnologia na educação. Não apenas de ensinar uma criança a usar uma ferramenta, mas de criar situações em que ela possa compreender como as coisas funcionam e perceber que também pode interferir nelas. Pode desmontar, mudar, combinar, tentar de novo e chegar a uma solução diferente da que imaginávamos. Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que um material tecnológico pode oferecer: não uma resposta pronta, mas espaço para que a criança descubra que é capaz de encontrar uma.