Você conhece o experimento mental do Quarto Chinês?

Você conhece o experimento mental do Quarto Chinês?

Por Vitor Moreira

 

Imagine uma pessoa dentro de um quarto. Ela não sabe absolutamente nada de chinês.

Por uma abertura, começam a entrar papéis com símbolos chineses. Dentro do quarto, porém, existe um enorme livro de regras dizendo exatamente o que ela deve fazer:

“Se entrar este símbolo, procure aquele símbolo.”
“Se aparecer esta sequência, responda com aquela outra.”

A pessoa segue as instruções perfeitamente.

Do lado de fora, alguém que sabe chinês faz perguntas e recebe respostas coerentes em chinês. Para essa pessoa, parece que existe alguém lá dentro que entende a língua.

Mas a pessoa dentro do quarto não entende uma única palavra.

Ela apenas ficou muito boa em seguir instruções.

O filósofo John Searle criou esse experimento mental para discutir a diferença entre manipular símbolos seguindo regras e realmente compreender aquilo que esses símbolos significam.

E eu acho difícil não enxergar um paralelo com a educação.

Durante boa parte da nossa vida escolar, aprendemos procedimentos.

Leia este capítulo.
Decore esta definição.
Resolva dez exercícios deste tipo.
Use esta fórmula.
Siga estes passos.
Faça a prova.
Tire uma nota.

E a pergunta que fica é: será que aprendemos?

Ou será que, às vezes, apenas ficamos muito bons em reconhecer um tipo de problema e executar a sequência de passos que esperam de nós?

Isso não significa que exercícios, provas, fórmulas ou passo a passo sejam ruins. Muito pelo contrário. Eles têm uma função importante.

Eles nos dão repertório.

Antes de improvisar no piano, alguém precisa conhecer notas, acordes, ritmos. Antes de escrever, precisamos conhecer palavras. Antes de resolver problemas complexos, precisamos conhecer ferramentas.

O problema começa quando confundimos a aquisição dessas ferramentas com o aprendizado inteiro.

Aprender de verdade exige que a nova informação encontre lugar dentro daquilo que já sabemos.

Quando encontramos uma ideia nova, nosso cérebro tenta relacioná-la com os modelos que já construímos sobre o mundo. Às vezes ela se encaixa facilmente. Em outras, aparece uma contradição: aquilo que eu acreditava não explica mais o que estou vendo.

É o que, em teorias da aprendizagem, podemos chamar de conflito cognitivo.

A nova informação entra e parece procurar um lugarzinho dentro da nossa cabeça.

Empurra uma ideia para cá.
Obriga outra a se reorganizar.
Faz uma terceira ganhar um significado diferente.

Não estamos apenas acrescentando mais uma informação a uma pilha.

Estamos modificando a estrutura que já existia. Mas sem significar que entendemos, somente aceitamos e o cérebro encaixou de algum modo.

Por isso, responder corretamente a uma pergunta não significa necessariamente compreender aquilo.

É perfeitamente possível decorar uma definição, aplicar uma fórmula ou reproduzir um procedimento sem conseguir explicar por que aquilo funciona, quando deixa de funcionar ou como poderia ser usado em outro contexto.

E talvez seja justamente aí que o aprendizado precise dar um passo além.

Depois que adquirimos uma informação ou aprendemos um procedimento, precisamos começar a mexer nele.

Modificar.
Testar.
Comparar.
Fazer perguntas.
Descobrir até onde ele funciona e onde deixa de funcionar.

Porque, enquanto só repetimos aquilo exatamente como recebemos, ainda é difícil saber se compreendemos ou se apenas aprendemos a executar.

Vamos pensar em uma receita de bolo.

Na primeira vez que fazemos um bolo, seguir a receita exatamente como está escrita é uma ótima estratégia.

Duas xícaras de farinha.
Três ovos.
Uma xícara de açúcar.
Forno a determinada temperatura.

Não há nada de errado nisso.

Na segunda vez, provavelmente ainda vamos consultar a receita.

Mas em algum momento pode aparecer uma pergunta:

E se eu trocar a banana por maçã?

Nesse instante, algo interessante acontece.

Deixamos de apenas executar e começamos a experimentar.

Depois vem outra pergunta:

E se, em vez de farinha de trigo, eu usar fubá?

Agora estamos modificando variáveis e observando resultados.

Às vezes vai funcionar.
Às vezes vai dar errado.
Às vezes vai nascer alguma coisa completamente diferente do que imaginávamos.

Mas ainda existe um próximo passo.

Em algum momento começamos a perguntar:

Qual é a função do ovo nesse bolo?

Por que usamos farinha?

O que o fermento está fazendo?

Por que determinadas proporções funcionam e outras não?

Perceba a mudança.

Antes, sabíamos que havia três ovos na receita.

Agora começamos a entender o que o ovo faz.

Essa diferença parece pequena, mas é enorme.

Quando entendemos as funções dos elementos, começamos a ficar independentes da receita.

Podemos criar nossas próprias receitas.

Podemos perceber que determinado ingrediente pode ser substituído por outro porque ambos cumprem uma função semelhante.

Podemos prever o que provavelmente vai acontecer antes mesmo de colocar o bolo no forno.

Nesse ponto, já não estamos apenas seguindo procedimentos.

Estamos construindo modelos.

Mas ainda estamos presos ao bolo.

Então surge mais uma pergunta:

O que é um ovo?

Que propriedades fazem com que ele cumpra determinada função naquela receita?

Essas propriedades aparecem em outros alimentos?

Podemos utilizar os mesmos princípios fora da confeitaria?

E, ampliando ainda mais: será que aquilo que aprendemos nesse processo de testar variáveis, compreender funções e construir modelos pode ser usado fora da cozinha?

Agora já não estamos aprendendo apenas a fazer bolo.

Estamos aprendendo a pensar.

E talvez esse seja um dos grandes objetivos da educação.

O passo a passo pode ser o começo.

Ele nos permite entrar em contato com um território que ainda não conhecemos. Nos dá segurança, vocabulário e ferramentas para começar.

Mas ele não deveria ser o destino.

Depois de seguir, precisamos modificar.

Depois de modificar, precisamos investigar.

Depois de investigar, precisamos compreender funções e relações.

E depois precisamos conseguir transportar esse conhecimento para outros contextos.

É assim que deixamos de depender da receita.

Quem segue um passo a passo está fazendo algo errado?

Claro que não.

Todos nós precisamos de receitas quando entramos em territórios desconhecidos.

O problema é uma educação que entrega receitas durante anos e chama isso de autonomia.

Se queremos formar pessoas capazes de pensar por conta própria, não basta ensinar a responder corretamente.

Precisamos ensinar a perguntar por quê.

A testar.

A errar.

A modificar.

A comparar.

A descobrir relações.

A construir explicações.

Porque existe uma diferença enorme entre saber qual símbolo deve vir depois de outro símbolo e compreender o que aqueles símbolos significam.

E talvez uma educação que se preocupa apenas com a resposta certa esteja formando pessoas excelentes em sair do Quarto Chinês — sem nunca perceber que ainda estão dentro dele.